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A FÉ E O URBANO:
breve estudo sobre a devoção na formação dos bairros de Juiz de Fora - MG

Renato de Almeida


Uma cidade por onde atualmente desfilam as mais diversas religiões e doutrinas, entre católicos, protestantes, espíritas e pentecostais teve sua formação urbana iniciada ainda no século XVIII de forma não diferente de várias outras cidades brasileiras. Com uma tradição ligada à devoção popular aos santos, especificamente em nosso caso a Santo Antônio que emprestou seu nome a vila que surgiu - Santo Antônio do Paraibuna - que viria a se tornar a cidade de Juiz de Fora, a cidade cresceu em torno de núcleos populacionais formados em torno da capela ou da igreja, como em muitas cidades pequenas e grandes, como São Paulo por exemplo. Mas deixemos que Plínio Salgado nos defina este processo:

[os] ranchos foram as origens das cidades. Perto deles, alguém se lembrou de abrir uma venda. Quase sempre é o próprio dono do pasto e do rancho. Como as tropas são muitas, um concorrente constrói outro rancho, abre outras venda. Lavradores têm suas casas ali perto. Resolvem erigir uma capelinha. Um dos casais possui uma imagem. É, por exemplo, a de S. Bento. A capelinha chamar-se-á de S. Bento. Mas o povoado vai aumentando, ao longo da estrada. Um dia, o casal que doou a imagem assenta doar um patrimônio ao santo, alguns hectares de terra. Um sacerdote vem ali celebrar de vez em quando. O povoado aumenta; temos agora, um fogueteiro, um boticário, pedreiros, carpinteiros, ferreiros. Já se fazenda necessária a loja do fanqueiro, o armazém de secos e molhados. E, como há meninos, vem logo o mestre-escola. Correm dois, três anos; os habitantes se envergonham da capelinha humilde; deitam subscrição, fazem-se festas, lançam-se alicerces de um templo. E a cidade nasceu.

Devemos ter em mente toda a religiosidade do autor - um católico fervoroso - ao escrever este trecho, mas a sua descrição se encaixa perfeitamente a história de Juiz de Fora. No caso juizforano Antônio Vidal e esposa foram o casal responsável pela doação da imagem de Santo Antônio e do espaço para a construção da primeira capela. Um dos documentos mais antigos da cidade, é o "Pedido de Antônio Vidal para construir em sua fazenda uma capela sob a devoção de Santo Antônio" datado de 1741. Vidal, possivelmente um devoto, desejava assistir a celebração da missa com sua família sem ter que se submeter às longas distâncias em estradas de condições precárias até Simão Pereira. Assim, o "santo casamenteiro" entra para a história da cidade como seu protetor e, porque não dizer, em algumas vezes como centralizador da formação urbana.
Este artigo não se propõe a uma abordagem especializada do aspecto religioso destas devoções. Até mesmo por uma questão de autoridade e conhecimento, não nos consideramos aptos a tal análise. A proposta aqui é trazer uma contribuição da história urbana, preocupada com a questão da ocupação territorial e ao entendimento de um fenômeno cultural, que não foi singular, como a devoção aos santos e sua presença no espaço urbano.
Este estudo é parte de uma pesquisa que pretende trabalhar com a urbanização e a história de formação dos bairros da cidade, sobretudo na periferização das populações de baixa renda e chamou-nos a atenção o fato de diversos bairros terem se formado em torno de igrejas. De onde viria esta tradição? Como não foi um fenômeno isolado e nem restrito a apenas uma parte da cidade, porque esta constante repetição? E observado também que este é um fenômeno de duração temporal limitada, até onde ele foi e porque? Estas três perguntas, são o norte deste breve estudo. Longe de buscar respostas definitivas, pretendemos deixar no ar considerações que abram espaço a uma discussão e ao aprofundamento, abrindo campo para um tema bastante rico e que, infelizmente, não é nosso objeto de pesquisa principal.

O Caminho, a capela e a cidade

Antes de prosseguirmos a nossa argumentação, convém estabelecer algumas notas sobre as origens da cidade. Na História do Brasil, o período de maior expansão
das cidades corresponde ao período da mineração do ouro nas Minas Gerais do século XVIII. Antes disso, a criação de uma rede urbana era difícil, dada as restrições do comércio da colônia, uma vida cultural pequena e as dificuldades de acesso e comunicação. Apenas nas cidades litorâneas mais desenvolvidas uma infra-estrutura dotada de portos para escoamento da produção e chegada de manufaturados era encontrada. Mais do que isso, estas cidades funcionavam como uma primeira linha de defesa contra invasões e ataques, o que as tornavam mais importantes.
Na província de Minas Gerais neste período, mais especificamente por volta de 1703, houve o projeto da construção de uma estrada que ligaria a região das minas ao Rio de Janeiro para facilitar e aumentar a segurança do transporte do ouro extraído e também para evitar sonegação fiscal e contrabando surgido do transporte por outros caminhos. Esta estrada ficou conhecida como Caminho Novo. O Caminho, passava pela Zona da Mata Mineira e propiciou a circulação de pessoas pela região, antes uma mata fechada.
Nas margens deste caminho, foram montados diversos postos oficiais de registro e fiscalização do ouro, transportado por tração animal. Estes registros deram origem a cidades como Barbacena e Matias Barbosa. Também surgiram outros pequenos vilarejos - e voltamos a referência a Plínio Salgado - em decorrência dos armazéns e pousadas, como Santo Antônio do Paraibuna, o embrião da atual Juiz de Fora.
O governo imperial passou a distribuir sesmarias na região para pessoas de origem nobre ou que comprovassem possuir capitais para manter a terra, o que facilitou o povoamento com a formação de fazendas. Em 1853, a Vila de Santo Antônio do Paraibuna recebe o status de cidade e doze anos depois recebe o nome de Juiz de Fora. Esta toponímia peculiar, gera dúvidas quanto sua origem. De fato o Juiz de Fora era um magistrado do período colonial que, nomeado pelo Estado, atuava em locais onde não havia Juiz de Direito. Uma das versões mais utilizadas pelos pesquisadores locais é da que um Juiz de Direito esteve de passagem pela região e hospedou-se em uma fazenda que, de suas proximidades, surgiria do povoado. Entretanto não há nenhum consenso quanto ao nome do juiz.
Uma outra estrada, de fundamental importância no traçado urbano da cidade, foi a Estrada do Paraibuna projetada pelo engenheiro Fernando Halfeld. Esta estrada que deu origem a Avenida Barão do Rio Branco, tornou-se o tronco do centro da cidade e o local que abrigou a primeira igreja da cidade.

Sérgio da Matta, afirma que o aspecto religioso atua como um "poderoso fator centrípeto" de fixação regional. De acordo com esta interpretação a existência da igreja, do calendário de festas e as reuniões e cultos atuaram como um elemento agregador e fixador da população na região do Paraibuna. Ao lado das explicações de cunho econômico, como a instalação das vendas e pousadas e a localização privilegiada - entre a região das minas e o litoral - concordamos que este seja um fator que tenha influenciado de fato na vida cotidiana dos habitantes, pois o catolicismo popular brasileiro foi fortemente influenciado pelo português. Os hábitos da procissões, festas e culto aos santos são hábitos e tradições importados de Portugal.
Eliane Machado e Simone Santos em artigo sobre a religiosidade nas origens do espaço urbano juizforano, analisam dois documentos relativos às capelas: um documento, já citado, de 1741 que trata do pedido de Antônio Vidal e outro de 1844, um despacho do governo provincial de Minas Gerais que solicita licença para construção de outras capela também dedicada a Santo Antônio. Segundo as autoras, estes documentos mostram fatores como a devoção aos santos, o padroado, a legislação eclesiásticas e todos os seus tramites e a obrigatoriedade dos cultos na cultura local. Mas permitimo-nos ir um pouco além desta interpretação: ao olhar do historiador urbano uma nova faceta pode ser adicionada a estes documentos: a presença da capela também está ligada diretamente ao crescimento da cidade. Os pequenos locais de culto não se apresentam mais suficientes ao número de habitantes e ainda a capela vem a se tornar um espaço de sociabilidade da elite por excelência. Serve também para mostrar, como afirmam as autoras, o status dos construtores e mantenedores da capela.
No dia 28 de março de 1844, o Presidente da Província autorizou a ereção da capela que foi construída em terreno doado por dona Eufrásia Romana Evangelista em local elevado, à beira da atual Av. Rio Branco, que deu origem a Catedral. Algumas doações de terrenos ao redor foram feitas para que se chegasse ao espaço atual da igreja. Nesta época o povoado já contava com quarenta casas residenciais de construção permanente, algumas até com andar térreo onde se estabeleceram comércios e dois ranchos de propriedade do engenheiro chefe. Como se pode observar, o povoado já contava com uma população relativamente grande, que se fixou e se reproduziu em torno da capela.
Todo o centro da cidade de Juiz de Fora se desenvolveu em torno da igreja e novos bairros surgiram nos arredores do centro como os bairros Santa Helena, Granbery e Paineiras e assim a cidade foi se expandindo. Muitos pesquisadores locais do início do século XX tendem a opinião de que a cidade só começou a crescer depois da construção da capela e de fato isso nos parece real. E como dissemos anteriormente este não foi um fato exclusivo do centro da cidade: outros bairros e regiões tem sua igreja católica na parte central do seu espaço geográfico como veremos adiante e, normalmente, são as construções mais antigas. Vejamos adiante, exemplos do que estamos tratando.

Os bairros: seus nomes e seus porquês

Nesta parte, faremos algumas considerações sobre a "evolução" da toponímia dos bairros da cidade.Tomaremos como exemplos da formação de bairros que tem como núcleos a igreja católica os três bairros acima citados. As três regiões iniciaram a sua formação em diferentes momentos, a primeira (mapa 1) é de povoamento bastante antigo, remontando a um período anterior a fundação da cidade, a segunda (mapa 2) surgida da expansão do região conhecida como Alto dos Passos num período posterior à década de 1930 e a terceira (mapa 3) à partir de loteamentos feitos nas décadas de 1960/70. Além da igreja no centro da região nota-se a influência na nomenclatura dos bairros e nos bairros dos arredores. No caso de Santa
Terezinha o bairro vizinho é o Nossa Senhora da Graças, no caso de Santa Luzia, Santa Efigênia e Sagrado Coração e no Bonfim, Santa Paula, Santa Rita e Nossa Senhora Aparecida. Os mapas mostram a formação do bairro ao redor da igreja e em todos os casos a construção do templo antecede a ocupação territorial em massa.
No imaginário popular, sobretudo dos moradores mais antigos, a igreja era o espaço de sociabilidade por excelência. A missa de domingo era o grande evento social, palco das conversas e algumas vezes da organização social. As festas ocupavam também um espaço importante como aglutinador da força de trabalho em prol das melhorias para igreja e devoção aos santos e como espaço de lazer.
Entretanto o fenômeno do batismo dos bairros com nomes de santos e todo o aparato cultural nele inserido, perde força à partir da década de 1980. Nesta época dois fatores nos parecem de fundamental importância para esta mudança: o primeiro, de cunho cultural, é o aumento progressivo do número de evangélicos e com isso uma redução da influência do catolicismo e o segundo, de ordem econômica, é o aumento das ocupações expontâneas - conhecidas popularmente como invasões - e dos loteamentos comerciais para moradores de alta renda.
Poucos são os bairros batizados com nomes de santos após a década de 80. Os elementos motivadores principais para a nomenclatura dos bairros populares passaram a ser as homenagens a políticos e a adoção de algum sentimento de otimismo. Podemos ser mais claros com alguns exemplos: a partir deste momento, vários prefeitos da cidade foram homenageados, como Olavo Costa (Vila Olavo Costa), Furtado de Menezes, Luís Antônio de Melo Reis (Vila Melo Reis), Tarcísio Delgado (Vila Tarcísio) e Carlos Alberto Bejani (Vila Bejani). E também diversos loteamentos foram batizados com mensagens de otimismo e sentimento: Vila Esperança, Solidariedade, Vista Alegre, Cantinho do Céu, Jardim Esperança.
Estes novos tipos de nomes refletem uma realidade social diferente: as conquistas populares da casa para morar não são mais apenas um dádiva sobrenatural. Para os moradores a construção e regularização do loteamento são fruto da benesse de um político ou da própria luta dos moradores em tornar sua situação mais favorável. Daí as homenagens a serem feitas são voltadas ao benfeitor ou se constituem em uma homenagem à própria comunidade.
Outro tipo de nomenclatura também é adotada mas, neste caso, se referem aos condomínios fechados para moradores de alta renda. A explicação para os nomes utilizados nestes casos é meramente comercial: a construtora engajada no projeto de construção do local se propõe a criar um nome chamativo e que potencialmente ofereça um status a mais ao morador que ali fixar sua residência. Alguns exemplos deixam claro a pompa utilizada na elaboração do nome: Bosque Imperial, Chalés do Imperador, Residencial Granville, Vivendas da Serra, Quintas da Avenida, Chalés do Algarve. Rapidamente estes nomes penetraram no imaginário popular como "bairros de rico" e são associados imediatamente ao potencial econômico dos seus proprietários. Isso valoriza o terreno do local e o transforma num produto comercial de maior saída e lucratividade.
Outro fator importante além da toponímia é o sentido da ocupação destas áreas. No caso dos bairros populares, a ocupação é feita de forma desordenada e a principal preocupação é manter a posse do terreno. O espaço da igreja ou do local de culto não é pensado e muitas vezes nem é levado em consideração. Com o advento das igrejas evangélicas, muitos bairros novos não possuem uma igreja católica, mas possuem um ou mais pequeno espaço de culto evangélico. No caso dos condomínios fechados, a própria questão comercial não leva em conta o espaço de culto. Reservar um local para uma igreja, por exemplo, seria deixar de obter lucro com a venda de mais um ou dois lotes. Além disso, esta hipótese não é cogitada pois a facilidade de locomoção dos moradores é quase ilimitada e permite que estes procurem seus espaços de cultos de forma individual.
Esta nova forma de se pensar - ou não pensar - o espaço urbano trouxe algumas desvantagens. Aquele espaço de sociabilidade que citamos acima, deixa de existir e a comunidade precisa se organizar em torno de outros objetos, o que às vezes não acontece. Com isso dois fenômenos aumentam cada vez mais rápido: o individualismo e a imobilidade social. Apenas nos bairros mais pobres e pequenos uma organização é observada. As festas de devoções são apenas as já tradicionais e quase nenhum dos bairros citados as possui. Obviamente isso não significa o fim da sociedade civil organizada, mas se constituiu em um elemento desagregador da população.

Este artigo, como já dissemos, não se pretendeu a grandes respostas. Nosso objetivo foi apenas, a partir de uma visão externa à religiosidade, analisar a questão da devoção no espaço urbano. Como observamos a devoção e culto aos santos esteve ligada a formação do rede urbana municipal em seu período inicial e se estendeu aos bairros até a década de 80. Muito se ganhou com isso no campo das tradições e no social e algo se perdeu quando este aspecto cultural mudou de rumo.
Ao final deste artigo, inserimos alguns anexos que poderão dizer mais do que qualquer palavra escrita sobre eles. A idéia com o quadro e com os mapas é permitir do leitor e possíveis interessados no tema novas considerações e abordagens sobre este tema, dada a sua riqueza e a abordagem especulativa e introdutória aqui apresentada. A influência das devoções na toponímia e na formação do espaço urbano ainda é um assunto que deve ser explorado e pesquisado.
Anexos

Anexo 1 - Quadro de toponímia de bairros de Juiz de Fora antes e pós 1980. (Apenas alguns exemplos.

Pré 1980 Santa Helena, Santa Luzia, Santa Cândida, Nossa Senhora Aparecida, Santa Rita, Santa Efigênia, Santa Paula, Santa Cruz, São Judas Tadeu, São Mateus, Santa Cecília, São Pedro, Morro da Glória, Santa Catarina, Santa Terezinha, Bom Pastor, Santo Antônio.
Pós 1980 Vila Esperança, Solidaderiedade, Furtado de Menezes, Vila Ozanan, Vila Bejani, Vila Melo Reis, Vila Tarcísio, Vila Almeida, Vista Alegre, Vila Sô Neném, Borborema, Vila Paraíso, Arco Íris, Previdenciários, Residencial Granville, Bosque do Imperador, Chalés do Algarve, Chalés do Imperador, Vivendas da Serra, Bom Clima, Quintas da Avenida, Vila Fortaleza, Jardim da Lua, Jardim Umuarama


Anexo 2 - Mapas
Notas sobre os mapas.
Os mapas foram gerados em arquivos CAD pelo próprio autor. Os mapas aos texto se refere são: Mapa 1 - Santa Terezinha e região; Mapa 2 - Santa Luzia e região; Mapa 3 - Bonfim e região.
As igrejas estão assinaladas por uma cruz.



Bibliografia

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MATTA, Sérgio da. O Sagrado e as formas elementares do espaço urbano mineiro (Séculos XVIII-XIX). In: revista RHEMA, Vol. 4, nº 10, 1998.
MIRANDA, Beatriz V. Dias & SALGADO, Mabel. Memórias eclesiásticas: documentos comentados. Juiz de Fora: EDUFJF/CMI-JF/CEHILA-Brasil., 2000.
OLIVEIRA, Monica Ribeiro de. Juiz de Fora: vivendo a história. Juiz de Fora: Núcleo de História Regional da UFJF/Editora da UFJF, 1994.
OLIVEIRA, Paulino de. História de Juiz de Fora. Juiz de Fora: n/d. 1960.
SALGADO, Plínio. Como nasceram as cidades no Brasil. São Paulo: Voz do Oeste/MEC, 1978. 5ª ed.
TAVARES, Fátima Regina Gomes & CAMURÇA, Marcelo Ayres. Minas das Devoções. Diversidade religiosa em Juiz de Fora. Juiz de Fora: UFJF/PPCIR, 2003.



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